Moçambique: “Os deputados não nos representam, eles representam os seus interesses pessoais”

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Terminou, na última sexta-feira (30), a primeira sessão ordinária da Assembleia da República, da oitava Legislatura, e o @Verdade saiu à rua para colher a opinião dos moçambicanos a respeito do desempenho dos seus “digníssimos” representantes na Casa Magna. Enquanto uns afirmam que queriam ver a questão das autarquias provinciais aprovada, outros não ficaram satisfeitos com as respostas do Governo. E há os que não se sentem representados e desconhecem o trabalho dos deputados por eles eleitos.

Leonel Macome, de 38 anos de idade, residente no bairro de Xipamanine, em Maputo, desempregado e que sobrevive de biscates, considera que na primeira sessão ordinária do Parlamento o que o marcou foi a aprovação do Plano Quinquenal do Governo (PQG) e o respectivo Plano Económico Social (PES), bem como o debate em torno do polémico EMATUM aquando da ida do Executivo àquela “Casa do Povo”.

“Tratando-se de um novo Governo eu queria ver que actividades tinha para o país. E quando o Governo foi ao Parlamento responder às perguntas dos deputados não fiquei satisfeito com os esclarecimentos sobre a EMATUM. Eu ainda não entendi quais são os benefícios desta empresa para os moçambicanos e porque se fez um investimento muito grande recorrendo-se à dívida”, disse Leonel, que na AR conhece o deputado António Muchanga. “Ele não fala o que alguns não gostam de ouvir porque é verdade. Foi por isso que chegou a ser preso (...)”.

Este cidadão criticou o que chamou de perda de tempo a discutir-se assuntos que não dizem respeito à vida dos moçambicanos. “Os nossos deputados levam mais tempo a endereçar saudações especiais aos seus líderes. Tanto o MDM como a Renamo, bem como a Frelimo são iguais neste aspecto. Acho que eles deviam dedicar-se mais a debater o que lhes levou ao Parlamento. Que enderecem saudações quando tratam de assuntos dos seus partidos e não do povo”.

Ester Nhantumbo, de 26 anos de idade, habitante no bairro Patrice Lumumba, na Matola, é estudante universitária. Ela disse que no Parlamento conhece a presidente da AR, Verónica Macamo, os chefes das bancadas e os parlamentares António Muchanga, Eneas Comiche e outros que já foram ministros. O que a marcou durante a primeira sessão da oitava Legislatura foi a aprovação dos planos do novo Governo e alimenta a expectativa de ver concretizado o que o Executivo planificou, principalmente a criação de empregos e de oportunidades para a obtenção de habitação para os jovens.

Para Guilherme Limbau, 45 anos de idade, professor primário e morador do bairro Central, na capital moçambicana, e que conhece António Muchanga, Verónica Macamo e também os deputados que foram ministros, “o Parlamento ainda pode ser melhor se os deputados estiverem mais focados no que foram lá fazer. A concretização do que o Governo prometeu fazer em cinco anos e ao longo de 2015 depende do trabalho dos representantes do povo. O que me inquieta é que sinto que há falta de seriedade no Parlamento. O partido no poder parece que não respeita a oposição, talvez, por ser a minoria. Isso contribui negativamente para a qualidade do que se decide”.

Mussa Amade, de 28 anos de idade, é professor de profissão, e diz que a despartidarizaração do Aparelho do Estado foi o assunto que lhe chamou particularmente a atenção na primeira sessão ordinária do Parlamento, mas é da opinião de que os deputados deviam ter avaliado a situação socioeconómica dos funcionários públicos. “Conheço poucos deputados que nos representam na Assembleia da República. Sei que Henrique Lopes representa o círculo de Nampula, mas não vejo o trabalho que estes deputados fazem em prol de Nampula”, afirmou.

Joana jacinto, professora e residente no bairro de Carrupeia, acha que o Parlamento devia ter aprovado o projecto das autarquias provinciais. “Eu queria ver o assunto das autarquias provinciais resolvido, pois estamos cansados de ser governados por pessoas que não elegemos”, disse.

Já Alberto Francisco, de 42 anos de idade, recusou-se a tecer comentários a respeito da primeira sessão ordinária do Parlamento, afirmando que não se sente representado naquela Casa Magna “Não sinto a representação dos deputados, porque defendem apenas interesses dos seus partidos, e quando se fala da situação da população divergem no processo de votação, mas quando se trata de assuntos relacionados com regalias e salários dos parlamentares e que são chorudos, aprovam por unanimidade, o que nos leva a concluir que as sessões são apenas para cumprir o calendário de trabalho”.

Momade Buana Ali, de 31 anos de idade, morador do bairro de Murrapaniua, diz que não acompanhou a primeira sessão do Parlamento e desconhece os assuntos que foram discutidos pelos deputados. Ele afirmou que, nas eleições gerais, exerceu o seu dever cívico porque deseja ver mudanças nos sectores da Saúde e Educação.

“A situação da saúde no nosso país é, extremamente, preocupante. Eu votei porque acreditava que os nossos governantes iriam preocupar-se com a melhoria dos serviços prestados pelos profissionais da Saúde. Na Educação, o que sempre vemos é bastante vergonhoso, pois ainda há crianças a estudarem debaixo de árvores”, disse.

Por sua vez, Ismael da Fonseca, de 30 anos de idade, residente do bairro Napipine, afirma que os deputados continuam a não corresponder às expectativas do povo.”Esperamos que eles discutam a situação do povo, mas a agenda tem sido outra”, disse.

Para Fonseca, a primeira sessão do Parlamento moçambicano foi improdutiva, uma vez que os deputados não debateram assuntos prioritários da população. “Há mau atendimento nas unidades sanitárias e nas farmácias públicas há falta de medicamentos. Há falta de água para o consumo e a qualidade da energia eléctrica é fraca e tem havido cortes sistemáticos, prejudicando os usuários. Esses sãos os principais assuntos a que os deputados deviam dar prioridade, mas eles estavam preocupados em insultarem-se e discutirem coisas sem interesse para a população”, afirmou.

Isac Domingos, de 41 anos de idade, residente no bairro de Namutequeliua, diz que nas últimas eleições gerais não votou porque se encontrava acamado devido a problemas nas pernas, mas ele é da opinião de que os deputados têm estado a fazer o seu trabalho na medida do possível. “Penso que ainda é cedo para vermos os resultados do trabalho dos deputados, mas eles têm estado a aprovar documentos importantes para o país”, comentou.

Domingos gostaria de ver aprovado o projecto de autarquias provinciais, pois acredita que só assim se poderia acelerar o desenvolvimento socioeconómico das províncias.

Iva Bauque, de 28 anos de idade, moradora do bairro de Muatala, diz que não se sente representada na Assembleia da República, uma vez que desconhece o trabalho feito pelos deputados em prol do bem-estar da população moçambicana. “Votei apenas para cumprir o meu dever cívico”, afirmou tendo acrescentado que o país ainda enfrenta diversos desafios: “O problema da falta de energia é frequente e os responsáveis pelo sector mostram-se inoperantes. O povo precisa de uma expansão da rede mais abrangente. Aliado a isso estão os hospitais que continuam sem medicamentos, o que faz com que os doentes se dirijam às farmácias privadas”.

Mustafa Samo, de 39 anos de idade residente no bairro de Carrupeia, arredores da cidade de Nampula, diz que a semelhança da legislatura anterior que foi marcada pela negativa. Na sua opinião, a sessão da Assembleia da República que acaba de terminar não trouxe nada que sirva de orgulho para o povo moçambicano. “O Governo, mais uma vez, não conseguiu responder aos anseios dos moçambicanos. Esperávamos ver respondidas as perguntas relativas às novas estratégias de emprego para a camada jovem, mas o Governo limitou-se a citar as premiações dos melhores agricultores do ano, para além de referir o envolvimento dos agentes da Polícia da República de Moçambique nos crimes”, disse.

Para Mustafa, o caso EMATUM foi um dos pontos que prendeu a atenção dos moçambicanos, mas este diz ter ficado frustrado pelo facto de não ter entendido melhor a explicação dada pelo representante do Governo aos parlamentares. “Ainda não percebi as vantagens que a EMATUM trará para os moçambicanos, e foram desembolsados os 850 milhões de dólares, num país pobre como o nosso”, disse.

Santos Bernardo, de 30 anos de idade, residente no bairro de Napipine, na cidade de Nampula, tratando-se de um Parlamento que ainda está na sua fase de implantação, e perante um Governo novo, a sessão foi bastante produtiva, pelo que o Governo conseguiu responder pontos que ainda eram objecto de inquietação das populações. “Gostei de ouvir a explicação do Governo no que tange ao caso EMATUM e a nova estratégia de combate à corrupção nas instituições públicas, mas não fiquei satisfeito com a explicação referente à distribuição de medicamentos, carreiras e progressões no Estado. Estou optimista, pois acho que é um Parlamento que de facto vai representar de forma condigna o povo que o elegeu”, precisou.

Faizal Gonçalves, enfermeiro de profissão, residente na cidade de Nampula, apesar de não ter acompanhado na íntegra as sessões da chamada casa do povo, disse que há muito trabalho a ser feito, e afirmou que a mesma foi muito produtiva. “A promoção nas carreiras dos funcionários públicos apresentadas pela ministra do pelouro foi um dos pontos que mais me interessou, mas os números apresentados estão aquém das expectativas, mas acredito que o Governo está a trilhar um bom caminho, e sinto-me orgulhoso da abertura que os deputados têm”, disse.

Milda Muhoro, estudante universitária, de 23 anos de idade, residente no bairro de Muahivire expansão, a sessão da AR ora terminada foi bastante produtiva, a avaliar pelos debates e abertura dos deputados e dos membros do Governo chamados a responder a algumas inquietações dos representantes do povo. “Estamos a caminhar para o melhor, acho que os deputados ainda vão a tempo de representar os anseios do povo. A despartidarização da Função Pública e o combate cerrado ao roubo dos medicamentos foram para mim os pontos que mais marcaram a primeira sessão da AR. Há pessoas que usam os partidos para a defesa de interesses pessoas, e assiste-se a doentes que morrem nos hospitais por alegada falta de medicamentos, mas sabe-se, porém, que o Governo aloca esses medicamentos, que são roubados pelos próprios profissionais para alimentar as clínicas privadas que se vão proliferando um pouco por todas as principais capitais provinciais do país", afirmou.

Para Jonas Erasmo, estudante universitário, residente no bairro de Namutequelia, cidade de Nampula, a despartidarização da Função Pública foi o tema mais marcante, pois o país precisa de caminhar verdadeiramente para uma democracia sólida e sem medo. “Temos que votar de livre vontade, ninguém pode estar vedado de fazer parte dum partido de oposição, este é o Parlamento com que sempre sonhei”, referiu.

Luís Paulo, desempregado e residente no bairro de Namicopo, cidade de Nampula, o tema referente à formação profissional face à criação de auto-emprego, e o projecto chumbado sobre a criação das autarquias provinciais foram os que mais se destacaram. “Sinto que é um Parlamento que de facto é representativo, e temos um Governo que, apesar de alguns pontos ainda não terem sido respondidos como se aguardava, veio para mudar muita coisa que ainda está mal. Esperava ouvir mais sobre a EMATUM, porque trata-se de contribuições dos moçambicanos, e o valor desembolsado devia ter sido investido em outras áreas”, revelou.

FONTE: @Verdade Online, 04/08/2015, http://www.verdade.co.mz/tema-de-fundo/35-themadefundo/54318-os-deputado...